A dubiedade do eu

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Aproxime-se. Não há por que gritar, soltar a voz e lançar-se em um precipício. Eis o que pretendo dizer: não há ideia volúvel, não há fascínios capazes de convergir o pensamento. Oh, existência que tanto embaraça e faz desacreditar do próprio eu! Oh, pensamento que arrasta a uma vastidão dubitável de emoções e ao desmanchar do ego! Sem querer persuadir com mera filosofia. Sem tentar embarcar no universo sapiencial e, talvez, retrocedendo... Aqui, a força de gritar perde a voz. Recluso-me aos ideais ainda desconhecidos e sigo. Sigo sob a tenra ou forte iluminação... ou, quem sabe, até mesmo na penumbra ou no escuro encontre respostas! Quem sabe... Quem sabe algum devaneio elucide o pensar, o agir, arrebate e devolva as mais puras emoções e certezas. Deveras, o gritar do pensamento esbofeteia a realidade do ser. Corrói como um ácido, apto a queimar os sentidos mais resguardados. Livre de amarras do pensamento, de demagogias que aprisionam a mente — até as mentes mais filosóficas. Tirar a...

Pequeno membro, mas pode incendiar uma floresta


    

Palavras agradáveis nem sempre são verdadeiras. Atitudes bondosas, muitas vezes, não são leais. Muitos se aproximam oferecendo ajuda, porém carregada de fingidas intenções. Investigam até conseguirem o máximo de informações; contudo, a malignidade cerca os pensamentos. E, assim, escavam a existência alheia, a fim de divulgá-la sem o mínimo respeito, sem averiguar as consequências que, inclusive, podem provocar uma avalanche de contendas ou perdas.

É natural falar mal do próximo, alguns assim defendem. Todavia, não há conformidade quando surgem rumores nos quais o falador se torna o assunto do jantar, do chá da tarde, do horário de almoço, da conversa na roda de amigos, daquela vizinha na casa da outra vizinha etc. "Ah! Isso não é normal! Não é justo falarem de mim!" Então, não é exemplar agir falsamente. Logo que o mexeriqueiro é o tema do diálogo, prontamente nomeia os seus amigos de fofoqueiros. Mas falar do próximo é bom? Nesse caso, por que não gostar de ser o centro das atenções? Já que tantos estão na ponta da língua, sequer podem se defender; não têm chance de se justificar. Sabe o provérbio que diz: "Não faça com os outros aquilo que não quer que façam a você."? A vida seria mais graciosa se o considerassem literalmente.

Parafraseando o adágio popular: "Se alguém fala mal dos outros a você, tal pessoa também agirá infielmente com você." Particularmente, conheço bem esse provérbio, pois fui criada e educada por pais não perfeitos, mas íntegros. Recordo-me das inúmeras vezes em que a minha mãe o recitou para mim.

Certa vez, ainda criança, uma senhora chegou à nossa casa. Minha mãe a recebeu muito bem; entretanto, aconteceu o inesperado. O rumo da conversa mudou, e o nome de uma fulana foi citado. É válido ressaltar que, na minha infância, ninguém se intrometia na conversa dos adultos, a não ser que fosse convidado. No entanto, algo alimentou a minha "pequena" curiosidade. Ouvi minha mãe pedir à visita que não pronunciasse nomes de terceiros maliciosamente; aquilo foi deslumbrante para mim naquele momento. Ouvi-a dizer: "Não aceito isso nem fora nem dentro da minha casa, porque, assim como a senhora fala dela, falará de mim ou até dirá o que eu não disse." Confesso que a visita foi embora. Passaram-se os dias, e ela retornou; entretanto, não detratou mais ninguém, e a raiva momentânea que sentiu pela minha mãe foi banida. É melhor ser verdadeiro, mesmo que isso cause dor. As palavras verdadeiras, pronunciadas com sabedoria, trazem cura (Provérbios 12.8).

Na pouca experiência que tenho, tenho presenciado casos originários de assuntos ou circunstâncias irrelevantes, ou até mesmo provenientes do nada. Já disseram: "Se você faz, falam. Se não faz, também falam. Então, deixe falarem." É nítido que o maledicente carrega outras deficiências, como inveja, maledicência, mentira, impostura, orgulho, interesse, bajulação, curiosidade, olhar maligno, entre outras.

Sem dúvida, o mexeriqueiro anda invejando a vida alheia, bisbilhotando os bens, as características, as conquistas, a família e qualquer tipo de relacionamento. Sim, bisbilhoteiros são invasivos, perversos, capazes de espalhar contenda e separar os melhores amigos (Pv 16.28). E, quando avistam aquilo que lhes falta, desejam o mal. Aí entra o praguejar: "Se eu não tenho, fulano não terá! Quero vê-lo falir! Olha para isso: tem dois (objetos ou outra coisa qualquer) e não me dá nenhum. É muito mesquinho!" etc.

Infelizmente, já vi mães fofocarem dos próprios filhos. Fazem dos assuntos familiares algo conhecido, revelam as fraquezas dos filhos, não se importam com a forma como eles estão física, emocional e financeiramente. Se o filho é casado e não contribui com as despesas da mãe, logo é considerado mão fechada, um péssimo e ingrato filho. Mas não questionam se ele e sua família estão bem, pois existem mães que colocam filhos no mundo para explorá-los e sugá-los por toda a vida. Pensam que a gratidão dos filhos consiste sempre em lhes dar dinheiro, embora não necessitem, e ainda choram de barriga cheia.

É óbvio que sou a favor de filhos bondosos. O que expresso aqui são valores, ética e preocupação familiar, em que as pessoas se preocupam mais umas com as outras do que com interesses próprios, e a ausência de amor não tem vez. Pessoas assim são descontentes, pois nada do que lhes façam lhes agrada.

        E a mentira? Essa praga destruidora habita o íntimo da alma, porquanto o blasfemador não tem coragem de assumir as próprias palavras e, igual a um carretel, enrola-se cada vez mais. Mente para ganhar confiança, para encobrir seus atos, culpando e denegrindo quem quer que seja. É interesseiro, usa de todas as forças para atrair algo ou alguém para si. Possivelmente, usurpa bens, relacionamentos, empregos etc. E, como que "sem querer", aproxima-se com uma voz mansa e serena. É hábil em elogiar. Demonstra desvelo por tudo e por todos a quem deseja atacar ou usar. São bajuladores profissionais, pois atuam perfeitamente, fingindo um amor desmedido; contudo, não passam de bajuladores. Fingem uma preocupação tamanha com o bem-estar do próximo que, se necessário, suprem necessidades e emprestam o "ombro amigo". Após conquistarem a confiança, atacam usando a arma que destila peçonha mortal. A Bíblia diz que "a boca lisonjeira é causa de ruína" (Pv 26.28). Tal veneno pode ser saboroso no princípio, mas, no final, é puro fel. Começa com um abraço envolvente; porém, no fim, transforma-se em garras assassinas. Sua arma é a língua, e o projétil, as palavras.

É inevitável perceber o olhar de quem observa os acontecimentos. Um olhar maligno, desconfortante, que analisa de baixo para cima e de cima para baixo. Olhares que jamais se direcionam aos do próximo, já que a desconfiança os domina. É uma visão a laser, que chega investigando intensamente tudo ao redor. Se fosse possível, arrancaria ou mudaria as coisas de lugar com a força dos olhos.

São possuídos de uma curiosidade demasiada. Se ouvem um ruído, colocam-se em posição. Se escutam um barulho na rua, já estão a postos; têm sede da vida alheia. Querem estar informados de todos os acontecimentos que os cercam. Por isso, o fofoqueiro está sempre envolvido em comentários ardilosos. É infeliz, pobre de espírito, usa a fofoca como base e vínculo para sustentar amizades. Afinal, "os maus dão grande atenção às más notícias, assim como os falsos apreciam ouvir mentiras" (Pv 17.4). Buscam pessoas coniventes, falantes do mesmo linguajar, com as mesmas inclinações; isso torna seus currículos desprezíveis.

Lamentavelmente, a fofoca é como uma bomba atômica: causa destruição por onde passa (Lv 19.16), gerando morte emocional e até física. É motivo de muitos divórcios, do distanciamento entre familiares, de desavenças entre vizinhos e de tantos outros conflitos na convivência humana. Muitos não apreciam conviver com pessoas indiscretas e egocêntricas. Torna-se duvidoso alguém afirmar que ama, mas contradizer-se com as próprias atitudes. Porquanto "o amor é benigno... não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses..." (1Co 13.4,5). Portanto, fuxicar é um pecado grave: fere a santidade de Deus, que o abomina, assim como qualquer outro pecado (Pv 6.19), e também machuca o próximo. Por isso, é importante polir as palavras (Efésios 4.29).

Se alguém se denomina honesto, mas ama falar de A, B, C ou do alfabeto inteiro, é desleal. Todas as ações do mexeriqueiro são ocultas. Esconde-se por detrás de máscaras que, com o tempo, caem. Apresenta-se elegantemente, revelando meiguice e cuidado desmedido; veste as "melhores roupas" do bom caráter. Contudo, não passam de roupas rotas, fingidas e podres.

Como vencer esse membro devastador que arrasta tudo à sua frente? Como se abster desse mal mortífero que sufoca, envenena e é capaz de incendiar uma floresta? Assim como diz o apóstolo Tiago:

"Assim também a língua, pequeno órgão, se gaba de grandes coisas. Vede como uma fagulha põe em brasas tão grande selva! Ora, a língua é fogo; é mundo de iniquidade; a língua está situada entre os membros do corpo, contamina o corpo inteiro e não só põe em chamas toda a carreira da existência humana, como também é posta ela mesma em chamas pelo inferno." (Tg 3.5,6)

Como preservar a língua do mal, sabendo quão difícil é controlá-la? Às vezes, sobrevém a oportunidade de provar e oferecer esse terrível veneno. Sim, somos suscetíveis aos erros, frágeis e mutáveis. Entretanto, é inapropriado estar envolvido nesse lixo de pecado. Viver praticando-o sem arrependimento significa não amar a Deus nem ao próximo. Não é fácil domar a língua; aliás, "nenhum dos homens é capaz de domá-la; é mal incontido, carregado de veneno mortífero" (Tg 3.8). Todavia, aqueles que temem ao Senhor, eleitos e regenerados pela graça, guiados pelo Espírito Santo de Deus, procuram viver piedosamente, visto que a carne não os domina, mas Cristo, pois "não vivo eu, mas Cristo vive em mim", disse o apóstolo Paulo (Gl 2.20).

Por que não falar a verdade? Por que é preferível enganar ou envolver-se na fofoca para não magoar o "amigo" falador? Todo fofoqueiro é traidor. Já pensou nisso? Por meio da língua bendizemos a Deus e amaldiçoamos os homens. "De uma só boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não é conveniente que estas coisas sejam assim" (Tg 3.10).

Não lhe dói o coração ver famílias, planos e conquistas alheias destruídos por alguém insensato, assassino (é fato que quem fofoca assassina com palavras), traiçoeiro e egoísta? Não causa desconforto ver alguém sendo traído? Não é repugnante presenciar o escárnio, a maledicência e a deslealdade? Se não, é necessário refletir e tentar, ao menos, não fazer ao outro aquilo que não gostaria que lhe fizessem. Pensando bem, essa é uma forma inteligível de agir.

Portanto, a Palavra de Deus orienta-nos a buscar a sabedoria do alto. Ela é "primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento" (Tg 3.17). É inútil acreditar que a fofoca prejudica apenas o outro. Engano! Ela afeta drasticamente quem a transmite. O corpo já está doente pelos pecados da carne, e a alma, apodrecida.

Sabiamente, a Bíblia esclarece: "Do fruto da boca o coração se farta; do que produzem os lábios, o coração se satisfaz. A morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come do seu fruto" (Pv 18.20,21).

Que Deus, mediante a sua graça, conceda-nos lábios puros, assim como fez com o profeta Isaías (Is 6), e que possamos dizer, como Davi: "As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, SENHOR, rocha minha e redentor meu!" (Sl 19.14).

A Bíblia ensina como proceder em qualquer situação; ela é o manual de fé e prática daqueles que amam ao Senhor. Por intermédio dela, é possível conhecer a Deus e viver como Ele determinou. Assim sendo, oremos para que haja lábios que glorifiquem o seu nome e abençoem o próximo, seja amigo ou inimigo. Que possamos ouvir e falar palavras abençoadoras. Não defendo aqui a confissão positiva, mas palavras que expressem o coração de quem adora a Deus, frutos dos lábios que confessam o seu nome (Hb 13.15). Sejamos sábios. Sejamos promotores da paz.

"Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome." (Sl 103.1)

Joseane Fonseca


                                                                                         



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