Um olhar na janela
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Da janela, observava a paisagem: mistérios, sorrisos, sonhos, decepções, conquistas... enfeitando a tela da vida, colorindo o painel artístico da singularidade da existência. Cada ser é um artista ao seu estilo e peculiaridade. Obviamente, se afirmar que não, serei como um mortal acéfalo, errante no mundo egocêntrico, ensoberbecido no eu, navegando rumo ao olho do furacão destruidor da compreensão, do bem-querer.
Retrospecção – olho para o passado; se necessário, corrijo o que for possível; se não, simplesmente permito que ele vá.
Introspecção – volto para mim; há possibilidade de mudança: melhoro, repito, renovo, recomeço, esqueço.
A autognose é ferramenta importante no auxílio da compreensão de si mesmo e do próximo; serve como escudo contra as palavras destrutivas, pode-se assim dizer. Não pretendo, aqui, ser uma ponte de autoajuda — frisando que não desmereço esse tipo de literatura —, mas redijo sobre algo que está em minha rotina e creio que é presença no cotidiano de muitos.
Aprendemos quando olhamos pela janela. Às vezes, apenas olhamos; outras, atuamos. Absorvemos experiências no vai e vem dos passos alheios e também dos nossos.
Contudo, qual o desígnio de escrever este texto? Certamente, aqui da minha janela, quero compartilhar o que os meus olhos veem. Convido-o a sentar-se e deixar a imaginação fluir; porém, se preferir, fique à vontade para analisar da sua e, juntos, verificaremos as nossas obras produzidas, as que produziremos ou as que os outros "elaboram" para nós.
Viver é um quê de mistério: não sabemos o que vamos encontrar nos altos e baixos, quais palavras ouviremos; desconhecemos se a flor plantada no jardim desabrochará pela manhã, pois talvez uma torrente pluvial a leve enquanto dormimos; não sabemos quando será o nosso último suspiro. Quantos anseios! Cada batida do coração ecoa na caverna do pensamento. Assim, deságuam na gruta a razão e a emoção; essa mescla que compõe o cerne do nosso ser.
Quando a emoção aflora, tornamo-nos demasiadamente vulneráveis e abstratos. Pode-se perder o equilíbrio, mas não a identidade. Pode-se borrar a tela; contudo, há chances de consertá-la e projetar uma pintura encantadora ou gritante; todavia, é arte, é história, é vida.
A escolha ocorre de acordo com o nível da habilidade e do esforço. Há quem ande mais rápido; existe também aquele que, lentamente, executa traços mais esmerados. No entanto, ambos trabalham perfeitamente ao seu tempo, ao seu modo.
Aqui, da minha janela, vejo desprezo, visto que alguns tentam moldar o outro à sua maneira. São intransigentes e querem colocar os que agem de forma diferente dentro do padrão e das características deles. Eles dizem: "Faça isso! Faça aquilo! Faça assim! FAÇA! FAÇA!" Querem transformá-lo em fantoche e, no final, guardá-lo numa caixa; querem si-len-ci-á-lo!
E eu decidi que não quero aplicar à tela um pássaro engaiolado. Não! Não! Não! Quero projetar pássaros livres num quadro colorido, soltos e aquecidos pelos raios do sol ou sentindo o afável gotejar da chuva, pelas montanhas, vales, oceanos, percorrendo belos jardins e selvas verdejantes e voando entre a vegetação rasteira na aridez do solo. Porquanto, o cenário favorece a aprendizagem e o crescimento. Permita-lhe alçar voos. Seja apto a enxergar novos horizontes. Espalhe tintas por onde passar. Construa. Reconstrua. Comece. Recomece.
Que texto absorto!
— Hum? Talvez!
Vamos recomeçar?
Ainda estou aqui, refletindo... pensando... Ah! Por que há gente tentando tomar o pincel, manchar a pintura, usurpar a obra de outrem? Tentando derramar a tinta? Por quê? Por que humilhar o artista, mas querer usufruir do seu trabalho? Interiormente admira o autor; entretanto, o despreza, posto que os sentimentos são impressos em papéis de inveja. Qual a dificuldade de entender que as pessoas não agem de forma igual? Qual a dificuldade de respeitar o tempo, o jeito como as pessoas constroem suas obras? Imagino que alguns acreditam que há clones seus espalhados por aí, pois andam buscando seres idênticos e, quando não os encontram, insistem em moldá-los. Qual a dificuldade de entender que os cenários são divergentes e que a singularidade determina onde o indivíduo deve estar? Alguém disse que o ser humano é complexo; vou mais além e ouso afirmar: é um emaranhado de complexidades.
Por mais invasivos e arrogantes que os demais sejam, não entregue o pincel. Se a gravura foi manchada, corrija, apague os traços indesejáveis. Devolva autenticidade à tela, pois você é o autor. Olhe da sua janela, dê credibilidade à tela, segure firme o pincel, mescle as tintas. Trace o que os seus olhos veem, conforme o seu tempo, o seu modo. Somos únicos, e isso nos torna belos.
Os olhos são a expressão da alma. A alma reflete o que os olhos veem. Lembro-me das palavras de Jesus: "São os teus olhos a lâmpada do teu corpo; se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; mas, se forem maus, o teu corpo ficará em trevas" (Lc 11.34).
Embora planejem elaborar ou atribuir-nos uma obra defasada, suja, sem a nossa autenticidade, rejeitemos, porquanto a nossa assinatura é valiosa demais para ser negligenciada. Janelas sujas refletem olhares sujos, e vice-versa.
Particularmente, deixo passar despercebidas as coisas destrutivas, as que insistem em penetrar no olhar; expulso-as, pois não cabem no meu mundo, na minha história, na minha arte. Oh! Que privilégio receber e ser iluminado! Uma vez que a lâmpada clareia tudo ao seu redor, então não quero ser escuridão; quero os raios luminosos adentrando a janela e o olhar, desejo os raios fixados ao painel da vida. Esqueço olhares tortos, palavras assassinas; por certo, não transferirei à minha obra artística as armas daqueles que lutam para trucidar sonhos, que lançam bombas para matar as esperanças. Reproduzir cenários bélicos é torturante.
Ainda estou aqui. Vejo. Revejo. Minhas mãos fazem traços, apago, refaço. Assim sigo observando da janela: a chuva, o sol... ouço palavras... Ufa! Os fones transmitem maravilhosa canção aos meus ouvidos... Por um instante, o mundo para.
Em minha visão pairam a retrospecção e a introspecção, e escrevo, escrevo... Percebo uma obra inacabada. Produzo, reproduzo, e quanto mais elaboro, mais desejo. Ainda ouço os ecos na caverna do pensamento. Não quero parar, porque o olhar é amplo, a janela me proporciona um espaço agradável; eu quero ficar. Daqui, avisto o infinito.
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Comentários

Lindo, lindo o texto, profundo, filosófico. O final, meu Deus, é magnífico. É um convite para a observação serena das coisas, da vida, dos quadros que pintamos com os pincéis da alma.
ResponderExcluirAgradeço, de coração, por suas palavras. Fico feliz por saber que o texto o conduziu a essa contemplação. Que continuemos pintando nossos quadros com autencidade. Seja sempre bem-vindo ao Alma em Letras.
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