A dubiedade do eu

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Aproxime-se. Não há por que gritar, soltar a voz e lançar-se em um precipício. Eis o que pretendo dizer: não há ideia volúvel, não há fascínios capazes de convergir o pensamento. Oh, existência que tanto embaraça e faz desacreditar do próprio eu! Oh, pensamento que arrasta a uma vastidão dubitável de emoções e ao desmanchar do ego! Sem querer persuadir com mera filosofia. Sem tentar embarcar no universo sapiencial e, talvez, retrocedendo... Aqui, a força de gritar perde a voz. Recluso-me aos ideais ainda desconhecidos e sigo. Sigo sob a tenra ou forte iluminação... ou, quem sabe, até mesmo na penumbra ou no escuro encontre respostas! Quem sabe... Quem sabe algum devaneio elucide o pensar, o agir, arrebate e devolva as mais puras emoções e certezas. Deveras, o gritar do pensamento esbofeteia a realidade do ser. Corrói como um ácido, apto a queimar os sentidos mais resguardados. Livre de amarras do pensamento, de demagogias que aprisionam a mente — até as mentes mais filosóficas. Tirar a...

Campestre


Ao olhar o tempo, viro, dou meia volta.
Da janela, olho lá fora.
Vidraça ora límpida, ora turva.
Remota memória retorna na curva,
e de volta arrebatá-me sem dúvida.

Aromas sobrevêm. Terna lembrança
cheia de saudade do que um dia vivi.
Doce, mas tão doce que nunca esqueci.
Ah, cheiro de mato! Cheiro de capim!
Aqui, da cidade, desejo pra mim:

vida no campo, vida camponesa,
eu viveria, com toda certeza!
Colorida, bela és, ó natureza!
Paz, aconchego, riqueza,
o Criador te ornamentou, pura beleza!

Em teus multicoloridos campos deitar
entre flores e rosas perfumadas tocar,
enquanto na laranjeira canta o sabiá.
Que calmaria a alma começa exalar...
Que delícia ouvir o riacho cantar!

Deitar na terra sementes e colher
belos frutos bem viçosos,
Alimentos frescos recolher;
e, da cozinha, vendo os campos, cozer.
No meio de aromas e sabores viver.

Céu azul, nuvens a desenhar,
Piquenique na grama, agradável ar.
Ler poesias à sombra do bosque,
Sentir que o vento na pele encoste...
Ah! Que lugar lindo para amar!

Lá vem a chuva: porteira molhando,
Ouço a água na telha deslizando,
Cheirinho de terra molhada evaporando.
Da porta, vejo ao longe, a cerração 
E a vida mais vívida, cercada de vegetação.

Lindo soar de chuva, e animais
correm sob as águas pluviais —
águas de todas as estações, contumaz.
Terra encharcada, estradas, lamaçais;
anseio deitar, brincar nos teus "verdejais".

Desejável é vida sem reconstrução,
sem toques destruidores de mãos
humanas frias, sem contemplação —
matam árvores, colorem de cinza.
Destroem o belo que na terra habita.

Cidades cinzentas sentido não têm,
embora facilidade vejo também.
Questionável é o dia que com elas sonhei:
agitação, comoção... me deparei.
Adeus, terra cinzenta! Logo direi?

Não é que o cinza é rde todo ruim.
Maravilhoso é o dia frio, cinzento; é sim.
Nuvens turvas estampando o céu, enfim,
da janela com cortina de flores marfim;
avisto aromas, vidas, vislumbres sem fim.

Saudade dos campos, do límpido ar,
da brisa tranquila que faz a pele aveludar,
das gotículas do sereno a folha molhar,
do nascer e pôr do sol o céu a pintar,
das belas aves o céu povoar.

Ah! Quem me dera ouvir do riacho a voz!
E no vívido rio soltar os anzóis!
Nas árvores, ver e ouvir os rouxinóis
E coloridos beija-flores sobre os girassóis!
Bolo no forno à lenha, com recheio de noz!

Doce vivência campestre!
Serena vida rupestre!
Noite belíssima de estrela que veste
a imensidão do azul celeste;
e a lua nas águas do rio resplandece.

Doce noite nos campos invernais,
Maravilhoso som de águas pluviais.
Do telhado caem respingos tais,
Que fazem adormecer os seres naturais,
Como um coro de vozes angelicais.

                                  (Joseane Fonseca)


"Verdejais" palavra criada que se refere à vegetação e ambiente vívidos, verdes.




 














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