A dubiedade do eu
Aproxime-se. Não há por que gritar, soltar a voz e lançar-se em um precipício.
Eis o que pretendo dizer: não há ideia volúvel, não há fascínios capazes de convergir o pensamento.
Oh, existência que tanto embaraça e faz desacreditar do próprio eu!
Oh, pensamento que arrasta a uma vastidão dubitável de emoções e ao desmanchar do ego!
Sem querer persuadir com mera filosofia. Sem tentar embarcar no universo sapiencial e, talvez, retrocedendo... Aqui, a força de gritar perde a voz. Recluso-me aos ideais ainda desconhecidos e sigo. Sigo sob a tenra ou forte iluminação... ou, quem sabe, até mesmo na penumbra ou no escuro encontre respostas!
Quem sabe...
Quem sabe algum devaneio elucide o pensar, o agir, arrebate e devolva as mais puras emoções e certezas.
Deveras, o gritar do pensamento esbofeteia a realidade do ser. Corrói como um ácido, apto a queimar os sentidos mais resguardados. Livre de amarras do pensamento, de demagogias que aprisionam a mente — até as mentes mais filosóficas.
Tirar as máscaras e dançar no baile da vida. Às vezes, o mais difícil é desnudar o próprio eu. Sem vociferar. Contorcer-se para dentro de si e lapidar-se... Decerto, possa ser autocomiseração, tal que subjuga ou enleva a individualidade.
E, não, não sei se é bom desfazer todo eu. Também não sei se o melhor é mantê-lo.
Retrocedo: aparar as arestas, esculpi-lo e, assim, equilibrá-lo.
Oh, mente inquietante, que ilude, confronta, erra, acerta...
Aproxime-se. Tome o assento, se isso bem lhe aprouver; caso contrário, sinta-se à vontade — você é livre.
Enquanto eu ficarei aqui, imersa nessa dubiedade, à espera de uma elucidação, de uma resposta concreta, mesmo que seja rígida; pois lancei a mente ao regaço. Bem, se foi o certo a se fazer? Não sei. Mas permanecerei aqui com as imaginações desvestidas. Sem vociferar. Sem afundar no precipício.
Assim, quem sabe, a força do pensar arrebate e transcenda a efêmera materialidade.
Parabéns! Texto profundamente filosófico, que questiona o "vir a ser" do ser humano diante da imensidão da existência e da própria consciência.
ResponderExcluirMuito obrigada! Fico imensamente feliz que o texto tenha despertado essa percepção. Seja sempre bem-vindo!
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