O véu da consciência
A consciência foge ao controle, enquanto a razão respinga suas gotas tão lentamente, reprimidas pela emoção, que as sufoca.
Somente às vezes, os olhos são cerrados, e o cansaço procura deixá-lo nesse estado permanente. No limiar da vida, a escuridão insiste em tomar o olhar. Encobre a visão e, sem que se perceba, o abismo aproxima-se, profundo e voraz, disposto a tragar os mais belos intentos, lançando, assim, o indivíduo aos próprios devaneios.
Não. Não é a loucura que devora o íntimo, que arranca a alma. Será que a altivez não lhe é superior? Será que não é ela a responsável por conduzir às profundezas e destronar a essência?
Lembro-me daquele ser pequenino, cheio de boas intenções, de muitos sonhos. É... sonhos, se é o conceito mais apropriado para se dizer. No entanto, esmiuçar tal ideia seria um realce para outra reflexão, decerto.
O ser cresce e, a cereja do bolo, perde um certo grau de significância — há coisas que se perderam no tempo, outras, nem mesmo foram encontradas — eis a existência manifesta e multifacetada a seguir seu ritmo e percurso.
Imaginar... ponto de valor estimável, pois viver à margem da imaginação é não viver; de fato, não sentir aflorar o despertar da consciência é não viver. É não saber tocar a pétala e sentir sua maciez, seu aroma.
Entregar-se à compreensão desse misto de incerteza sonhadora e imaginável traz liberdade à forma criadora que compõe a parte do DNA de cada indivíduo. Então, deduzo: existir é sentir as pétalas como também os espinhos; é saber tocar a maciez e a aspereza — eis a força motriz que mobiliza para a concretude da abstração daquilo que os olhos não podem ver; daquilo que depende de elementos palpáveis para chegar à realidade, à existência. É isto: o sonhar é abstrato; o realizar é concreto, e ambos existenciais.
Permitir que ilusão e realidade toquem a mente, interligando todos os poros até atingir o íntimo é crucial. É imprescindível. É considerável, porque há uma pulsação que interliga as estruturas do sujeito por completo. Mas, elevar a consciência, pode causar hipertrofia de pensamentos — aqui, a efemeridade emerge, a razão sobrejuga a ficção e os fatos se tornam límpidos, tão translúcidos, que o mundo em volta perde a beleza, o encanto. Aqui, o véu é rasgado. A visão é desnudada. Aqui, entretenimentos enfraquecem.
Por quê?
Bem, isso depende do que lhe é intrínseco, do que pulsa; do que está enraizado unicamente na própria consciência.
— Joseane Fonseca
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