A dubiedade do eu

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Aproxime-se. Não há por que gritar, soltar a voz e lançar-se em um precipício. Eis o que pretendo dizer: não há ideia volúvel, não há fascínios capazes de convergir o pensamento. Oh, existência que tanto embaraça e faz desacreditar do próprio eu! Oh, pensamento que arrasta a uma vastidão dubitável de emoções e ao desmanchar do ego! Sem querer persuadir com mera filosofia. Sem tentar embarcar no universo sapiencial e, talvez, retrocedendo... Aqui, a força de gritar perde a voz. Recluso-me aos ideais ainda desconhecidos e sigo. Sigo sob a tenra ou forte iluminação... ou, quem sabe, até mesmo na penumbra ou no escuro encontre respostas! Quem sabe... Quem sabe algum devaneio elucide o pensar, o agir, arrebate e devolva as mais puras emoções e certezas. Deveras, o gritar do pensamento esbofeteia a realidade do ser. Corrói como um ácido, apto a queimar os sentidos mais resguardados. Livre de amarras do pensamento, de demagogias que aprisionam a mente — até as mentes mais filosóficas. Tirar a...

Existência






Amanheceu. Eu senti. Eu vi os raios solares iluminando e, por fim, aquecendo a minha pele. Eu não estava sonhando. Não. Não. 
As encostas cobertas com a neblina que começava a desaparecer no ar, no mesmo tempo em que das árvores também parecia sair fumaça.
Eu estava quieta. Compenetrada. Tentando desfrutar o delicioso frescor que a esplendorosa manhã me proporcionava, após uma noite de temporal, em que as águas torrenciais arrastaram o sono. 
Alerta ao som das folhagens no farfalhar do vento; a sinfonia das gotas de chuva no telhado e escorrendo pelo chão; ao clarear dos relâmpagos atravessando o vidro da janela e ao vociferar do trovão entre a terra e o céu, reflito: a noite mal dormida não foi em vão.
Apesar da escuridão das nuvens, a lua estava ali, as estrelas também. E por mais que eu não as visse, ambas brilhavam de forma tão envolvente. 
Notei que não estava só, ainda que a tempestade assolasse, a minha imaginação voava...
Reprimida pelo frio, enrolada entre os lençóis, encolhida, buscava calor da energia corporal. Apesar de contratempos a noite foi linda e o amanhecer ainda melhor. 
Ao dissipar da neblina, os tímidos raios do sol penetraram a encosta e, nas folhagens, bem distante, eu os via chegando timidamente. A brisa tocou minha pele, revigorando-me.

Lá fora, o mundo estava acordado — pássaros cantavam, as flores coloriam o cenário, e os beija-flores batiam suas asas velozes ao bicar cada roseira. A terra molhada, mais tonificada e os campos ainda mais verdes proporcionaram bem-estar indizível.
Não pude fechar os olhos sem contemplar. Percorria o olhar pausadamente, pois, queria fotografar cada momento e retê-lo em minha memória. 
Enfim, suspirei, fechei os olhos e agradeci. 
Não há como mensurar, mas, o mundo fora dos holofotes é definitivamente melhor! Ainda que o universo agitado proporcione vantagens, jamais trará o  calor da agradável tranquilidade. Que amiga ela é! Amo essa conexão de corpo e alma. 
Amo realçar a visão para o que realmente importa. Ver além da escuridão da noite. Abraçar o universo em plenitude. E, assim, mergulhar nas profundezas até desvendar os mistérios da existência.

Joseane Fonseca

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