O véu da consciência

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Às vezes, somente às vezes, no divagar do tempo, certos acontecimentos saem como planejados; outros passam longe e muitos sequer chegam perto. A consciência foge ao controle, enquanto a razão respinga suas gotas tão lentamente, reprimidas pela emoção, que as sufoca. Somente às vezes, os olhos são cerrados, e o cansaço procura deixá-lo nesse estado permanente. No limiar da vida, a escuridão insiste em tomar o olhar. Encobre a visão e, sem que se perceba, o abismo aproxima-se, profundo e voraz, disposto a tragar os mais belos intentos, lançando, assim, o indivíduo aos próprios devaneios. Não. Não é a loucura que devora o íntimo, que arranca a alma. Será que a altivez não lhe é superior? Será que não é ela a responsável por conduzir às profundezas e destronar a essência? Lembro-me daquele ser pequenino, cheio de boas intenções, de muitos sonhos. É... sonhos, se é o conceito mais apropriado para se dizer. No entanto, esmiuçar tal ideia seria um realce para outra reflexão, decerto. O ser c...

Reflexão




Hoje acordei necessitando de algo. Imediatamente, lembrei-me de alguém que pudesse ajudar-me.

— Amiga, tudo bem?

Essa é uma forma aprazível de se comunicar. Nem sempre há interesse, mas...

Amanhã acordarei sem precisar. Espero.

Procurei resolver tudo com uma tranquilidade infinda. Fiquei feliz por saber que minha amiga sempre está disponível, independentemente de qualquer situação.

— Quanta ingenuidade... — ouvi uma voz dizer.

Despertei do sonho.

Infelizmente, esse tipo de atitude não pertence apenas aos sonhos.

Quantas oportunidades temos de tornar o dia de alguém mais feliz?

— Bom dia!

— Tudo bem?

São frases tão pequenas, mas carregadas de afeto.

De fato, há pessoas que jamais se contentam e sempre exigem mais. No entanto, a pessoa humilde satisfaz-se com quem você é. A egoísta, porém, é insaciável, pois busca apenas realizar os próprios interesses; corre atrás daquilo que você possui, e não da sua essência.

Nem todos são amigos, visto que muitos sofrem ao ver as suas conquistas. O verdadeiro amigo chora as suas dores e sorri com as suas alegrias, reciprocamente. Gente desse nível é difícil encontrar.

Há quem não deseje tê-lo por perto nos momentos de felicidade, mas aceite, com facilidade, quaisquer presentes.

Muitos abrem as portas para o próximo não porque valorizam a amizade, mas porque calculam o retorno. Há aqueles que entendem que uma celebração pertence aos mais chegados; outros convidam o mundo inteiro, imaginando que, quanto maior o número de convidados, maior será a quantidade de presentes recebidos.

Onde encontrar relacionamentos completamente livres de interesse neste mundo tão confuso?

Sem dúvida, o orgulho habita o coração humano, ainda que em pequena medida. Vivemos numa sociedade que afirma zelar pelo bem de todos; entretanto, ensina-nos a olhar apenas para os próprios interesses.

Aprendemos a não perdoar e, assim, afundamos no oceano gélido da insensibilidade.

Perdoar é aceitar tudo o que nos foi feito?

É claro que não.

Em determinadas situações, devemos nos impor. Também é necessário estabelecer limites, com sabedoria, diante daqueles que desejam transformar-nos em fantoches.

Ninguém é perfeito, é verdade. Contudo, é admirável quando alguém procura ser melhor do que foi ontem; melhor até do que era há alguns segundos.

A beleza da caminhada está justamente no reconhecimento de que não somos perfeitos. Então, nasce a possibilidade de perdoar e também de sermos perdoados.

A mente se amplia, pois deixamos de enxergar o outro como um mecanismo de conquista e passamos a vê-lo como alguém tão forte quanto frágil: simplesmente, um ser humano.

Não escrevo para propagar o negativismo. Também não idealizo um mundo além da realidade. Não encontrei utopia no passado e tampouco a encontrarei no futuro.

Tenho comigo que emoção e razão caminham juntas.

Observo os acontecimentos cotidianos, e eles me impulsionam. Também me ensinam a ser, a deixar de ser ou a jamais me tornar determinado tipo de pessoa.

Os óculos da observação adornam bem o olhar, ainda que, por vezes, provoquem dor.

Dias confusos são os nossos...

Precisamos de gente rara.

Não é necessário possuir vasta experiência intelectual.

Precisamos de gente sem interesses ocultos.

De gente que saiba ser...

simplesmente gente.

"O amor é sofredor e benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal. Não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade." (1 Coríntios 13.4-6).


Joseane Fonseca

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